Dizia em 18 de Novembro de 1993 "Quando a Hipocrisia salta a cortiça"

Como introdução e explicação do título que atribuí a este meu escrito e para que com ele se conheça o que sentirão alguns daqueles leitores deste jornal que ainda têm na dignidade e na coerência de princípios o referencial que os norteia, quero começar por esclarecer que "saltar a cortiça" é um termo que os pescadores usam para referir que algo está a extravasar os limites, no ponto de vista deles a sardinha que capturaram e, no do leitor a HIPOCRISIA.


Passemos portanto, com a serenidade que nos for possível, a analisar o "APONTAMENTO SOBRE UMA REALIDADE LITORAL JUSTIFICATIVA DE UMA OPERAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO COSTEIRO INTEGRADO", recentemente publicado no jornal A Voz do Mar.


Certamente que ninguém ousará contestar muitas das realidades apontadas e até aplaudir as soluções que são sugeridas para alguns dos problemas que urge resolver, mas permita-se-nos também analizar as causas, a oportunidade e quem as aponta.


Quem vive nesta terra aos anos suficientes para ter presenciado o que foi o comportamento de algumas das entidades e pessoas que sempre quiseram ter a pretensão de mandar e orientar os destinos da pesca, certamente compreenderá com mais clareza a razão de ser deste escrito, certo de que a memória dos homens não será assim tão curta como a querem fazer um punhado de oportunistas, que sempre tiveram a habilidade de saber instalar-se na crista da onda.


Disse-se:
"Todavia nem tudo corre pelo melhor, e são já bem visíveis os efeitos da crise no sector", esta uma conclusão a que parece chegar-se e logo se aponta como causa do facto "o resultado final de receitas manifestamente insuficiente para garantir a sobrevivência das empresas, e rendimentos para os pescadores que se situam neste trágico ano de 1993 bem abaixo do salário mínimo instituído em Portugal".


Se bem se recordam aqueles tais que por cá vivem aos tais anos, já em 1975 assim era e já nessa altura se sabia o resultado a que conduzia a política de sobrecarga salarial a que obrigaram os armadores da pesca da sardinha, não creio que os elementos de análise de sobrevivência económica de uma empresa tivessem mudado, mas o autor do apontamento, que se comenta, é fortemente implicado nas medidas que na altura foram tomadas no sector e portanto muito responsável pelo estado a que a pesca do cerco chegou e que agora tanta aflição causa.


E continua:
"Já a potencial reanimação da pesca do cerco se apresenta como mais problemática, mais morosa e mais exigente de imaginação e de meios financeiros, não sendo por outro lado exequível, sem uma redução muito significativa de mão de obra envolvida".


Pois claro, que quanto mais tardias são as medidas mais morosas e exigentes têm que ser. Resta saber se aos meios que agora se pretendem para solução da situação, não será dado o mesmo fim a que se destinaram tantas centenas de milhares de contos de que beneficiaram as cooperativas de pesca a que o autor do artigo presidiu, das quais nada beneficiou o pescador. Este, em nome do qual se continua a apregoar a necssária reestruturação, mas para quem se começa por, agora realisticamente, apontar o caminho do desemprego, avisando-se, desde já, que "è este o panorama da região de Peniche, que é idêntico ao de outras regiões onde se pratica a pesca de cerco e, repetimos com veemência, ou se actua de imediato e com muita determinação, ou não tardará a derrocada de todo o sector com todo o seu cortejo de infortúnios e convulsões sociais".


Claro que na devida altura tanto o já citado articulista como o seu sempre associado Sindicato dos Pescadores terão a oportunidade de vir à rua apontar como causadores das desgraças os agentes do costume.


E, pensamos nós agora, ao constatarmos que afinal até existem, como sempre existiram, meios para viabilizar uma actividade fundamental para a nossa terra, o que terá impedido de, em devido tempo, se terem tomado as medidas agora proclamadas? Será que está para passar algum comboio onde se pretende embarcar?


De uma coisa podem estar certos os pescadores que porventuram vierem a cair no desemprego, é que, como refere o articulista, "as actividades de recreio e desporto virão dar uma mãozinha na solução dos seus problemas"......


Mais vale tarde do que nunca e procure-se na realidade, sem demagogias baratas e sem oportunismos fáceis, olhar de uma vez por todas para as reais necessidades da nossa terra e dos nossos conterrâneos, pescadores ou não.


Como nota final deixaria a sugestão de se procurarem recolher trabalhos anteriormente realizados, nomeadamente os que se produziram na Convenção das Pescas, quando da realização das Feiras do Mar, e ficarei muito satisfeiro se os penicheiros forem capazes de dar as mãos para solução de um problema que é de todos nós.


UMA NOTA DE HOJE - 18 Novembro de 2007.

O que acima se reproduz foi, como certamente se compreende, uma reacção a um apontamento publicado na "Voz do Mar" por uma figura altamente implicada no que foi a evolução das pescas desde 1975.

Passaram catorze anos e o panorama das pescas é o que constatamos. Não foram capaz ou não quizeram encontrar a solução para uma actividade primordial para a nossa terra. O certo é que pescadores, em nome de quem tantas sereias cantaram, quase não existem. Será impossível encontrar a solução para o assunto? Ou teremos de andar, no futuro, de bandeja na mão a servir os turistas que nos queiram visitar? Espero que se olhe, definitivamente, para a minha terra.

Comentários