A NOSSA SARDINHA E AS LAGOSTAS DA MAURITÂNIA



Todos os rapazes da minha idade e mais alguns bem mais novos, se lembram de uma época em que os nossos barcos começaram a pescar lagosta na Mauritânia. Foi uma festa ao longo de vários anos em que alguns “Chicos” carregaram as embarcações, quanto podiam, e vinham fazer a sua venda no nosso porto. Actuavam com licenças obtidas junto das entidades locais, muitas vezes através de negociatas com gente local influente, que não tinham em vista os interesses do seu país, antes procuraram satisfazer o seu interesse pessoal. A faina foi continuando, primeiro trazendo as lagostas de maior dimensão, até que acabou por chegarem, até nós, milhões de lagostas pouco maiores que navalheiras. Esta estória foi continuando até ao dia em que se concluiu que não valia a pena voltar dada a completa exaustão daquele stock de marisco.

Esta narrativa tem a ver com o que se está a passar, neste momento, entre nós, com a pesca da sardinha. Clama-se contra a interdição de pesca excessiva tendo em vista, algumas vezes, apenas o interesse imediato, esquecendo, umas vezes por ignorância, outras por questões de luta política, que afinal se está, com esta intervenção, a preservar a continuação da espécie que tanta importância tem para a economia da nossa terra, antes que aconteça o que se passou na Mauritânia.

Outra coisa bem diferente será a continuidade da existência da pesca do cerco nos moldes em que se continua a fazer. Na minha ideia o que tem sido a prática até aqui não pode continuar, por questões de rentabilidade das empresas e, também, por questão dos pescadores que nela labutam, cujo rendimento cada vez vai sendo menor, já basta o facto de serem a única classe que só ganha se pescar, e porque a política dos subsídios não vai eternizar-se.

Esta época de crise provocou, no nosso país e em relação a muitas indústrias, a necessidade de alterações de conduta e sistemas produtivos, tendo em vista a chamada dar a volta por cima, que lhes proporcionou o poderem continuar e, às vezes, melhorar a sua rentabilidade. Continuo a defender a ideia de que a indústria da pesca da sardinha, tanto como todas as outras, não é excepção.

Setembro/2015.

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