segunda-feira, 24 de agosto de 2026
NOVENTA ANOS PASSADOS (desde que)
Nasci nesta
cidade em 23 de Agosto de 1936, na Rua da Alegria e na zona denominada Peniche
de Cima.
A minha
infância foi passada entre os estaleiros navais ali existentes, os medões da
praia da Cambôa. o Pinhal da Lagoa, a Barra Nova (zona, então, alagada nas
traseiras da Fábrica do Fialho), a Papôa e Forte da Luz, tudo isto representa
como que uma grande quinta onde os cabritos campeiam com todo o à-vontade, era
assim que a criançada se desenvolvia.
Tive,
portanto, uma forte ligação com a vida das pessoas que ali exerciam a sua
actividade profissional, a vida da época assim permitia embora sentindo sempre
a forte vigilância que a família fazia sobre tudo isto.
Fiz a
primeira classe numa escola instalada no antigo celeiro do Snr. João Pereira,
ao lado da minha rua de nascimento, e passei para o edifício central escolar
nos restantes anos da primária.
A Dª. Ivone,
o Professor Ribeirinho e o Professor António Matoso foram os responsáveis pela
minha primária, sendo que o Professor Matoso acrescentou mais os dois anos
liceais.
Quando
estava a terminar o 2º ano liceal e por um problema de saúde fui obrigado a
transitar para o Curso Geral do Comércio que era lecionado no Instituto D. Luís
de Atayde e, entretanto, por encerramento do velho instituto, passei para o
Externato Atlântico, instalado no Campo da Torre.
A frequência
destes estabelecimentos de ensino permitiu que acabasse por ser entrosado na
restante actividade da minha terra e ter contacto com a sua vida em geral.
Foi uma
época determinante daquilo que viria a ser o meu futuro.
Estava nos
meus doze/treze anos quando tive contacto com a Associação Recreativa
Penichense, através da necessidade de consultar as obras literárias que iam
sendo referidas na escola, facto que, também, me levou a sentir necessidade de
pedir ao meu pai a sua inscrição como sócio.
A frequência
mais constante daquela colectividade despertou o meu interesse pela mesma e
levou a que, numa acção conjunta com mais três amigos, fossemos solicitar à
direcção da colectividade autorização para organizarmos umas matinés dançantes
nas tardes de domingo.
Levantamos
um problema porque precisávamos de mobilizar o rádio de serviço da
colectividade e que, na época e no dia pretendido, era utilizado para ouvir os
relatos de futebol pelos sócios mais velhos, o que levou a que apenas utilizássemos
o dito aparelho a partir da hora em que o futebol acabasse.
Tudo correu
bem, a juventude passou a aderir à colectividade e daqui resultou o nascimento
do movimento pró-sede após adesão de alguns elementos directivos.
Este
movimento juntou uma verba significativa, utilizada quando da edificação da nova
sede.
Esta minha
ligação à colectividade acabou por durar treze anos, na ocupação de vários
cargos directivos e foi no baile de Natal de 1949 que conheci a Rosa, minha
esposa.
A minha vida
profissional começou no dia 1 de Abril de 1953, com 16 anos de idade, através
de um convite do gerente da agência bancária Pinto de Magalhães, Lda., que me
foi comunicado pelo Snr. Francisco José Machado, o tesoureiro da empresa.
Terei aqui,
abrindo um parêntesis, de prestar a minha homenagem e agradecimento ao Snr.
José júlio Cerdeira, o homem que me transmitiu tudo o que foi a minha
actividade profissional.
A minha
ligação à vida da nossa terra permitiu que, por intermédio do colega de escola Carlos
Sá, que trabalhava na Câmara, me envolvesse na organização de um evento, na
área da vela, constituído pela organização de uma prova do campeonato europeu
da classe Moth.
Para isso
foi criado o Clube Naval de Peniche, a que passei a estar ligado, por escritura
de 25 de Janeiro de 1956.
A ligação a
este clube continuou até hoje, porém, de forma activa desenvolvendo vários cargos,
como seja monitor de vela e cargos directivos vários, durou cerca de vinte
anos.
Nos pós 25
de Abril e nos primeiros meses do verão de 1975 estava um grupo de sócios no
Clube Naval de Peniche e nas instalações do Fosso das Muralhas, quando foi
recebida a notícia de que, pela terceira vez, as antigas instalações da pousada
do Forte de S. João Batista, que estava encerrada, foram assaltadas por
desconhecidos.
A notícia chocou
os presentes e logo se resolveu que era urgente que fossem tomadas medidas para
antecipar a hipótese de o forte ser ocupado por gente estranha à nossa terra,
como vinha acontecendo noutros locais.
A iniciativa
teve a aderência de muitos dos frequentadores da Berlenga e assim nasceu a Comissão
Instaladora da Associação dos Amigos da Berlenga.
Na época
designada por PREC (processo revolucionário em curso), quando estávamos sob o
jugo comunista, a Misericórdia de Peniche esteve prestes a ser confiscada por
outra entidade ligada ao processo, felizmente alguém que atuava na sua
secretaria teve conhecimento antecipado e passou a palavra a um amigo que tomou
a iniciativa de, em sigilo, reunir um grupo de amigos que se opusesse.
Fiz parte do
grupo, com muito orgulho, e invadimos a Assembleia onde estava a ser cozinhado
o assalto, passando, a partir daí, a assumir a sua gestão, facto que, no que me
diz respeito, ainda hoje persiste.
Politicamente
e no que me tocou pessoalmente estive, antes do 25 de Abril, ligado a um grupo que
esteve em formação para apoio da ala liberal que se formou na Assembleia
Nacional e a convite do Snr. Dr. Tomás Oliveira Dias, no tempo da presidência
de Marcelo Caetano.
Quando a
comissão administrativa, que assaltou o poder camarário em Peniche, começou a
actuar, retirou o meu nome do caderno eleitoral.
Não deixei
de actuar na tentativa de fazer crescer aquela que, ainda hoje, me parece ser a
forma mais justa de governo, qual seja, a Social Democracia.
Ainda
continuo a fazer parte do Partido Social Democrata e ao longo de muitos anos
desenvolvi a actividade que pude e soube na defesa dos interesses locais, quer
no partido, quer na Assembleia Municipal, onde tive a honra de defrontar os
seus opositores.
Neste campo
político, desempenhando os mais variados cargos no meu partido, ocupei 16 anos
de efectividade.
Sou rotário
há 48 anos, uma organização internacional que procura, no mundo inteiro,
amenizar a vida daqueles que são desprotegidos da sorte.
Fiz parte do
grupo de penicheiros que foram convidados para pôr em prática, na nossa cidade,
os desígnios desta entidade, sou, portanto, um dos fundadores do Rotary Club de
Peniche.
Quis o
destino e algumas pessoas, que a sua actividade fosse interrompida e neste
momento está suspenso, a palavra solidariedade mudou de caris, agora, para se
ser solidário tem de se ter a garantia da subsídio/dependência.
A minha
ligação a Rotary International vai continuar até que Deus me chame.
Aqui vivi
momentos inolvidáveis com crianças e adultos, enquanto responsável pela acção
de um centro de férias que os rotários, com o seu contributo pessoal,
construíram.
Como dá para
ver, fiz toda a minha vida activa e, não só, neste meu berço dourado, a cidade
de Peniche, sem que dele tenha saído, contrariando alguns esforços feitos nesse
sentido.
Daí o meu
apego e amor a esta terra, que Deus irá permitir que seja a do meu repouso
eterno.
E,
finalmente, chegou o dia em que me foi permitido celebrar o meu nonagésimo
aniversário, estou grato por isso, mas muito mais grato pela família que o destino
me atribuiu, só me cabe dar graças a Deus pela dádiva.
No campo das
amizades tenho muita honra naqueles que a evidenciam e, até, permita-se-me o
termo, naqueles que o são despercebidamente.
Gostaria de
os ter todos aqui, tarefa impossível de concretizar, mas aqui estão alguns bem
representativos do todo, permita-se-me, porém, que saliente aqueles que objetivamente
constituíram o que designo por segunda família, aqueles com quem convivi
durante os 41 anos de trabalho efectivo, os que estão entre nós e os que já
partiram, e me ajudaram a concretizar, bem ou mal, o objectivo de que
profissionalmente fui incumbido.
Noventa anos
vividos sem grande ilustração, mas com a convicção do dever cumprido e, podendo
afirmar, sem ter causado prejuízo a ninguém.
(Estas foram as palavras que dirigi aos presentes na minha festa de aniversário onde esteve presente a família, os antigos colegas de trabalho e uns outros bons amigos)
Etiquetas: O meu pensamento
Um forte abraço de parabéns. Ainda há caminho pela frente e ideias para concretizar. Força!!!
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